Um sofá de obra não se compra: constrói-se. E quase nunca sai bem à primeira se não planificar a ordem dos passos. Aqui tem a sequência real que seguimos em obra, com os pontos onde costuma correr mal.
Passo 1: fixe o vão antes de pedir qualquer coisa
O erro mais comum é encomendar o sofá com as medidas da planta e não com as do vão real. As paredes de tijolo vazado levam reboco e esse centímetro e meio por face não aparece nas plantas. Meça com o reboco aplicado e desconte 1 cm por lado para que o móvel entre sem batidas.
Um caso concreto: numa remodelação de um apartamento dos anos 60, o vão entre pilares era de 2,10 m em planta, mas após o revestimento de pladur baixou para 2,03 m. O sofá pré-fabricado de 2,05 m não entrou. Solução: sofá de obra com estrutura de 2 m e estofamento à medida.
Passo 2: escolha o sistema construtivo
Opção A: bastidor de madeira com pés de obra
Estrutura de pinho ou faia, travessas a cada 40-50 cm e pés de alvenaria revestidos de argamassa ou gesso. É a solução mais integrada em remodelações integrais onde o sofá faz parte do banco corrido.
Opção B: base de obra e almofadas soltas
Levanta-se um rodapé de tijolo ou bloco de betão e remata-se com painel hidrófugo. As almofadas vão à parte. Vantagem: podem ser renovadas sem tocar na alvenaria. Inconveniente: pesa e não se move, condiciona a distribuição para sempre.
Segundo documentação técnica de fabricantes de espumas, para assentos de uso diário convém uma densidade de 35-40 kg/m³ na almofada base e uma camada superior de 25-30 kg/m³ para conforto. Abaixo de 30 kg/m³ o assento achata-se em meses.
Passo 3: resolva a ventilação e o acesso
Um sofá de obra fechado pelos quatro lados acumula humidade. Deixe sempre uma câmara ventilada na base com grelhas discretas ou uma frente desmontável. Em pisos térreos ou com laje em contacto com o terreno, isto não é opcional.
Isto não funciona em caves sem ventilação mecânica: a madeira do bastidor acaba por inchar mesmo estando tratada.
Passo 4: estofamento e remates
O estofador precisa do bastidor já fixado ao chão ou, no mínimo, com as fixações previstas. Estofar antes de aparafusar à parede obriga a desmontar. Os remates de obra (gesso, argamassa, filete) vão depois do estofamento, protegendo o tecido com plástico.
Tecidos: os de exterior tipo acrílico ou polipropileno resistem melhor à limpeza com água em obra do que um veludo ou um linho. Se o sofá estiver junto a uma janela com sol direto, um algodão sem tratamento desbota numa temporada.
Passo 5: verificação final
- Assento a 40-43 cm do chão (ergonomia padrão de sala).
- Profundidade de assento entre 55 e 60 cm; mais de 65 cm obriga a deitar, não a sentar.
- Altura do encosto não inferior a 35 cm acima do assento para apoio lombar.
- Fixação à parede em zonas sísmicas ou com crianças pequenas.
O que este sistema não resolve
Não é boa ideia em arrendamentos nem em apartamentos onde prevê mudar-se: desmontá-lo implica obra. Também não compensa se procura um sofá-cama ocasional; o mecanismo exige folgas que a alvenaria não permite. E não o recomendo em remodelações com orçamento apertado: entre alvenaria, carpintaria e estofamento costuma superar o custo de um sofá à medida convencional, embora o resultado seja mais duradouro.
Antes de começar, consulte o arquiteto ou o diretor de obra: as cotas do vão e as cargas da laje (um sofá de obra com base de tijolo pode rondar os 150-200 kg) devem ficar refletidas no projeto.